Há uma hora e qualquer coisinha que chegámos a casa, eu, a minha A. e o feijãozinho, vindos do concerto do Nick Cave & The Bad Seeds, aqui mesmo, neste Porto ainda mais soturno por causa da chuva. Nos últimos tempos, passei os olhos pela crítica e li não sei quantas opiniões sobre o novo álbum do Nick Cave, li que o homem anda a fazer as pazes com Deus, li que o homem anda a soltar os cães sobre Deus, li que nem uma coisa nem outra, que o homem anda meio feito com Deus, meio feito com o diabo, li tanta coisa que fui desconfiado para o concerto, mas com trabalho de casa feito: ouvi o disco nas últimas semanas e, sinceramente, gostei muito.
Consta que, na véspera, o concerto em Lisboa tinha sido muito bom e fiquei a desejar que o do Porto fosse melhor. Se foi, não sei, mas acredito que não saiu a perder. O homem fez-me recuar aí uns vinte anos, quando o vi pela primeira vez, no Rivoli, com outras sementes más ao lado. Hoje o artista, que já viveu no Brasil, sabe dizer «obri fucking gado» e «obrigado», e em português agradeceu para aí umas mil vezes os aplausos e os delírios do público, sem perceber quase nada do que lhe disseram a ele. Ainda bem para o artista, pior para mim que tinha muito perto um improvável grupo de grunhos para um concerto do género. Acontece.
Foi a terceira ou quarta vez que assisti a um concerto do Nick Cave e deste último guardo as melhores impressões. A minha A. também gostou e o feijãozinho não se queixou nem um bocadinho.
A caminho do 51 anos de idade (22 de Setembro), o australiano continua a ser uma descarga de alta voltagem, como já se tinha (re)visto no projecto Grinderman. Não regressou, propriamente, dos mortos com Dig, Lazarus, Dig!!!, mas desenterrou uma parte dele próprio que, percebe-se agora, esteve a maturar na sombra, nos bastidores das experiências mais recentes, para se libertar outra vez e nos levar a alma a todos... Oh, Deanna, o gajo tinha mesmo razão!!!
Não mexam no Batô
17 years ago
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