Capítulo II
Quando li as «Instruções de uso» do micro-ondas dos meus vizinhos, juro que me apeteceu gritar um palavrão daqueles com tantos ou mais cabelos que uma colónia de hippies. Fiquei em brasas com aquelas instruções: se deviam instruir-me a utilizar o aparelho, por que raio continuava eu a mirar com absoluta ignorância para todos os botões do dito cujo? «És um morcão», reprovei-me em pensamento, mas respirei fundo e agitei as folhas de papel e foquei outras vez as letras miúdas e impressas com tinta claramente pobre...
A segunda leitura esclareceu-me. Foi um alívio. Desta vez, não tive razões para cortar o caminho ao pensamento que me descia até à língua, e partilhei o meu inequívoco entendimento das «Instruções de uso» com os meus vizinhos: «Se isto foi feito para ensinar as pessoas a trabalharem com o micro-ondas, agora que acabo de reler estas belas instruções, tenho a certeza que quem escreve estas coisas, quem faz estes quadros e estas ilustrações sofre de um imenso rancor à Humanidade.» O meu vizinho assinou por baixo: «Pois, e em várias línguas...», disse-me, e pus-me a folhear aquele compêndio de nações unidas e a comparar as instruções em português com as instruções em inglês, e as instruções em inglês com as instruções em espanhol, e as espanholas com as francesas, e as francesas com as italianas, e as italianas com as alemãs, e as alemãs com outras já não sei de onde... Mesmo sem perceber patavina de alemão e das outras que eram já não sei de onde, acertei outra vez agulhas com o meu vizinho. «Enfim, para dicionário foleiro, não está mal», e o meu vizinho recebeu bem o passe e, virando-se para a minha vizinha, rematou: «Pois, quando quiseres saber como é que se diz em chinês “pôr a aquecer no micro-ondas”, já sabes onde podes aprender!» Gargalhei.
Mas o caso não era para rir e o riso desapareceu-me mesmo quando olhei para o pátio dos meus vizinhos. Estávamos na cozinha deles, apeteceu-me ir lá fora fumar um cigarro, levei a mão ao bolso direito das calças e... «raios, deixei o tabaco do lado de lá, em casa», pensei, reprimindo automaticamente o impulso de pedir um cigarro à minha vizinha, por vergonha.
Disfarcei, agitei outra vez as folhas de papel, sacudi a cabeça como fazem os boxeurs quando aquecem para os combates e creio que esse gesto assustou a minha vizinha. «Deixe lá, depois o meu neto passa por cá, a ver se põe isto a trabalhar», disse-me, mas descodifiquei assim a mensagem: «Você está a ficar furioso com esses papéis e ainda vai acabar aos murros ao micro-ondas.» Reagi de imediato, num tom educado, mas com as palavras a saírem-me a cem à hora. «Na vossa casa, não mando nada, era o que mais faltava! Mas não saio daqui enquanto não perceber como é que se domina o aparelho! Ia agora fazer-lhes uma desfeita dessas, depois deste tempo todo que aqui estive a incomodá-los! Podiam estar os dois sossegados, a verem a vossa televisão ou a conversar... Nem pensar em ir-me daqui sem pôr isto a trabalhar, nem pensar, isso é que nunca!» Mas, ao fazer finca-pé, percebi que me enganara a medir o alcance das palavras da minha vizinha, e desacelerei e procurei aliviá-la do incómodo que, afinal, ela sentia por pensar que me estava a incomodar com aquele trabalhão de interpretar as malditas instruções do micro-ondas. «Provavelmente, está a ficar tarde para vocês. Estas coisas também não são para se tratarem à noite, mas não pude vir antes. Se preferirem, passo por cá amanhã, de dia, e agora até levava as folhas comigo para as ler melhor, com mais calma...», e o meu vizinho interrompeu-me. «Por nós, esteja completamente à vontade», disse-me, com um sorriso puro e gesticulando para vincar: «A sério, esteja mesmo à vontade. Temos tempo!» A minha vizinha alinhou com o meu vizinho e, também com o sorriso iluminado das boas pessoas, disse-me: «Faça mesmo como entender, só não quero é que se esteja a maçar com isto.»Então, sorri para eles com um sorriso espontâneo, um sorriso que só se abre para alguém de quem gostamos. «Eu também tenho tempo e vocês não me maçam», disse-lhes, voltando-me automaticamente para o micro-ondas. «Ó artista, vamo-nos entender, está bem? Tu, com esses botões todos, pareces mais um casaco», trocei com o aparelho. A minha vizinha fez «eh, eh, eh», o meu vizinho também se riu e eu rendi-me à evidência: as instruções de uso dos electrodomésticos são boas para formar autodidactas, ainda que, no fundo, no fundo, me pareçam muito más até para limpar rabos...
Quando li as «Instruções de uso» do micro-ondas dos meus vizinhos, juro que me apeteceu gritar um palavrão daqueles com tantos ou mais cabelos que uma colónia de hippies. Fiquei em brasas com aquelas instruções: se deviam instruir-me a utilizar o aparelho, por que raio continuava eu a mirar com absoluta ignorância para todos os botões do dito cujo? «És um morcão», reprovei-me em pensamento, mas respirei fundo e agitei as folhas de papel e foquei outras vez as letras miúdas e impressas com tinta claramente pobre...
A segunda leitura esclareceu-me. Foi um alívio. Desta vez, não tive razões para cortar o caminho ao pensamento que me descia até à língua, e partilhei o meu inequívoco entendimento das «Instruções de uso» com os meus vizinhos: «Se isto foi feito para ensinar as pessoas a trabalharem com o micro-ondas, agora que acabo de reler estas belas instruções, tenho a certeza que quem escreve estas coisas, quem faz estes quadros e estas ilustrações sofre de um imenso rancor à Humanidade.» O meu vizinho assinou por baixo: «Pois, e em várias línguas...», disse-me, e pus-me a folhear aquele compêndio de nações unidas e a comparar as instruções em português com as instruções em inglês, e as instruções em inglês com as instruções em espanhol, e as espanholas com as francesas, e as francesas com as italianas, e as italianas com as alemãs, e as alemãs com outras já não sei de onde... Mesmo sem perceber patavina de alemão e das outras que eram já não sei de onde, acertei outra vez agulhas com o meu vizinho. «Enfim, para dicionário foleiro, não está mal», e o meu vizinho recebeu bem o passe e, virando-se para a minha vizinha, rematou: «Pois, quando quiseres saber como é que se diz em chinês “pôr a aquecer no micro-ondas”, já sabes onde podes aprender!» Gargalhei.
Mas o caso não era para rir e o riso desapareceu-me mesmo quando olhei para o pátio dos meus vizinhos. Estávamos na cozinha deles, apeteceu-me ir lá fora fumar um cigarro, levei a mão ao bolso direito das calças e... «raios, deixei o tabaco do lado de lá, em casa», pensei, reprimindo automaticamente o impulso de pedir um cigarro à minha vizinha, por vergonha.
Disfarcei, agitei outra vez as folhas de papel, sacudi a cabeça como fazem os boxeurs quando aquecem para os combates e creio que esse gesto assustou a minha vizinha. «Deixe lá, depois o meu neto passa por cá, a ver se põe isto a trabalhar», disse-me, mas descodifiquei assim a mensagem: «Você está a ficar furioso com esses papéis e ainda vai acabar aos murros ao micro-ondas.» Reagi de imediato, num tom educado, mas com as palavras a saírem-me a cem à hora. «Na vossa casa, não mando nada, era o que mais faltava! Mas não saio daqui enquanto não perceber como é que se domina o aparelho! Ia agora fazer-lhes uma desfeita dessas, depois deste tempo todo que aqui estive a incomodá-los! Podiam estar os dois sossegados, a verem a vossa televisão ou a conversar... Nem pensar em ir-me daqui sem pôr isto a trabalhar, nem pensar, isso é que nunca!» Mas, ao fazer finca-pé, percebi que me enganara a medir o alcance das palavras da minha vizinha, e desacelerei e procurei aliviá-la do incómodo que, afinal, ela sentia por pensar que me estava a incomodar com aquele trabalhão de interpretar as malditas instruções do micro-ondas. «Provavelmente, está a ficar tarde para vocês. Estas coisas também não são para se tratarem à noite, mas não pude vir antes. Se preferirem, passo por cá amanhã, de dia, e agora até levava as folhas comigo para as ler melhor, com mais calma...», e o meu vizinho interrompeu-me. «Por nós, esteja completamente à vontade», disse-me, com um sorriso puro e gesticulando para vincar: «A sério, esteja mesmo à vontade. Temos tempo!» A minha vizinha alinhou com o meu vizinho e, também com o sorriso iluminado das boas pessoas, disse-me: «Faça mesmo como entender, só não quero é que se esteja a maçar com isto.»Então, sorri para eles com um sorriso espontâneo, um sorriso que só se abre para alguém de quem gostamos. «Eu também tenho tempo e vocês não me maçam», disse-lhes, voltando-me automaticamente para o micro-ondas. «Ó artista, vamo-nos entender, está bem? Tu, com esses botões todos, pareces mais um casaco», trocei com o aparelho. A minha vizinha fez «eh, eh, eh», o meu vizinho também se riu e eu rendi-me à evidência: as instruções de uso dos electrodomésticos são boas para formar autodidactas, ainda que, no fundo, no fundo, me pareçam muito más até para limpar rabos...
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