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16.3.08

Justificação

Sim, eu sei que tudo são recordações... Ops, desculpem, o Vítor Espadinha não é para aqui chamado. Mas roda o palco e vamos ao que interessa: a saborosa e inata tarefa de procriar é uma das justificações para a lenta (diria quase parada) cadência de publicação de tretas. Agora que me expliquei, avanço com mais um capítulo de o «Micro-ondas, uma treta por capítulos»... A história prossegue no post que espreita por baixo das saias deste.

O micro-ondas — uma treta por capítulos (II)

Capítulo II

Quando li as «Instruções de uso» do micro-ondas dos meus vizinhos, juro que me apeteceu gritar um palavrão daqueles com tantos ou mais cabelos que uma colónia de hippies. Fiquei em brasas com aquelas instruções: se deviam instruir-me a utilizar o aparelho, por que raio continuava eu a mirar com absoluta ignorância para todos os botões do dito cujo? «És um morcão», reprovei-me em pensamento, mas respirei fundo e agitei as folhas de papel e foquei outras vez as letras miúdas e impressas com tinta claramente pobre...
A segunda leitura esclareceu-me. Foi um alívio. Desta vez, não tive razões para cortar o caminho ao pensamento que me descia até à língua, e partilhei o meu inequívoco entendimento das «Instruções de uso» com os meus vizinhos: «Se isto foi feito para ensinar as pessoas a trabalharem com o micro-ondas, agora que acabo de reler estas belas instruções, tenho a certeza que quem escreve estas coisas, quem faz estes quadros e estas ilustrações sofre de um imenso rancor à Humanidade.» O meu vizinho assinou por baixo: «Pois, e em várias línguas...», disse-me, e pus-me a folhear aquele compêndio de nações unidas e a comparar as instruções em português com as instruções em inglês, e as instruções em inglês com as instruções em espanhol, e as espanholas com as francesas, e as francesas com as italianas, e as italianas com as alemãs, e as alemãs com outras já não sei de onde... Mesmo sem perceber patavina de alemão e das outras que eram já não sei de onde, acertei outra vez agulhas com o meu vizinho. «Enfim, para dicionário foleiro, não está mal», e o meu vizinho recebeu bem o passe e, virando-se para a minha vizinha, rematou: «Pois, quando quiseres saber como é que se diz em chinês “pôr a aquecer no micro-ondas”, já sabes onde podes aprender!» Gargalhei.
Mas o caso não era para rir e o riso desapareceu-me mesmo quando olhei para o pátio dos meus vizinhos. Estávamos na cozinha deles, apeteceu-me ir lá fora fumar um cigarro, levei a mão ao bolso direito das calças e... «raios, deixei o tabaco do lado de lá, em casa», pensei, reprimindo automaticamente o impulso de pedir um cigarro à minha vizinha, por vergonha.
Disfarcei, agitei outra vez as folhas de papel, sacudi a cabeça como fazem os boxeurs quando aquecem para os combates e creio que esse gesto assustou a minha vizinha. «Deixe lá, depois o meu neto passa por cá, a ver se põe isto a trabalhar», disse-me, mas descodifiquei assim a mensagem: «Você está a ficar furioso com esses papéis e ainda vai acabar aos murros ao micro-ondas.» Reagi de imediato, num tom educado, mas com as palavras a saírem-me a cem à hora. «Na vossa casa, não mando nada, era o que mais faltava! Mas não saio daqui enquanto não perceber como é que se domina o aparelho! Ia agora fazer-lhes uma desfeita dessas, depois deste tempo todo que aqui estive a incomodá-los! Podiam estar os dois sossegados, a verem a vossa televisão ou a conversar... Nem pensar em ir-me daqui sem pôr isto a trabalhar, nem pensar, isso é que nunca!» Mas, ao fazer finca-pé, percebi que me enganara a medir o alcance das palavras da minha vizinha, e desacelerei e procurei aliviá-la do incómodo que, afinal, ela sentia por pensar que me estava a incomodar com aquele trabalhão de interpretar as malditas instruções do micro-ondas. «Provavelmente, está a ficar tarde para vocês. Estas coisas também não são para se tratarem à noite, mas não pude vir antes. Se preferirem, passo por cá amanhã, de dia, e agora até levava as folhas comigo para as ler melhor, com mais calma...», e o meu vizinho interrompeu-me. «Por nós, esteja completamente à vontade», disse-me, com um sorriso puro e gesticulando para vincar: «A sério, esteja mesmo à vontade. Temos tempo!» A minha vizinha alinhou com o meu vizinho e, também com o sorriso iluminado das boas pessoas, disse-me: «Faça mesmo como entender, só não quero é que se esteja a maçar com isto.»Então, sorri para eles com um sorriso espontâneo, um sorriso que só se abre para alguém de quem gostamos. «Eu também tenho tempo e vocês não me maçam», disse-lhes, voltando-me automaticamente para o micro-ondas. «Ó artista, vamo-nos entender, está bem? Tu, com esses botões todos, pareces mais um casaco», trocei com o aparelho. A minha vizinha fez «eh, eh, eh», o meu vizinho também se riu e eu rendi-me à evidência: as instruções de uso dos electrodomésticos são boas para formar autodidactas, ainda que, no fundo, no fundo, me pareçam muito más até para limpar rabos...