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4.2.08

O micro-ondas — uma treta por capítulos

Capítulo I

Uma das grandes certezas da vida é o movimento do tempo: vai sempre em frente, e arrasta-nos com ele. Às vezes, tentamos fintá-lo, e o tempo ri-se de nós porque sabe, perfeitamente, que não podemos travar ou inverter a corrente em que ele nos leva. Só a morte é capaz de tamanha façanha, ou talvez não — a confirmação do prolongamento da vida para além da morte derrubará esse pensamento ou crença, mas quem tem pressa de saber o segredo?
Se me perguntarem se fumei qualquer coisa que não seja tabaco, nego por completo e ofereço meio litro de líquido fisiológico aos desconfiados. Toda esta treta vem a propósito dos meus vizinhos, um casal bestial a quem um dos netos ofereceu, há meses, um micro-ondas para os ajudar nas tarefas mais simples e rápidas na cozinha. Por um acerto do destino dá-se o caso de o neto ser meu amigo, daqueles do peito e a quem se perdoa tudo e mais alguma coisa, mesmo quando o mais justo seria descarregar-lhe em cima uma valente dose de porrada — e as vezes que ele já esteve perto disso! — porque não veio tomar aquele café que foi combinado para aí um milhão de vezes...
Eu (e mais alguns amigos) sei que o neto tem andado muito ocupado, mas os avós há meses que fitam o aparelho sem saber como o utilizar. Não, eles sabem muito bem o que é um micro-ondas, já trabalharam com um durante umas férias, mas este é muito diferente do outro, e até a senhora que, semanalmente, passa lá por casa a dar uma arrumação, lhe faz cara feia: «Também não é nada parecido com o que tenho».
Há dias, enquanto fumava um cigarro no pátio da minha casa (lá em casa, fuma-se no pátio, por respeito aos tectos, que são altos e deram um trabalhão a pintar), a minha vizinha assomou à porta exterior da cozinha da casa dela e atirou-me do lado de lá do muro:
— Desculpe, não me faz um favorzinho?
— Claro que sim! — e fiquei a pensar que ela me ia pedir um cigarrinho...
— Quando puder, dava aqui um saltinho só para ver se me consegue explicar como se trabalha com o micro-ondas...
— Mas é que vou já... — e fiquei a pensar que ela e o marido já me tinham dito, há uns tempos, que tinham um micro-ondas, e fiquei, sobretudo, a pensar que o marido me tinha dito, há menos tempo, que ela andava com ideias de aprender a cozinhar no micro-ondas.
— Agora não, deixe estar... Depois, quando tiver mais tempo.
— Agora tenho tempo — e olhei bem para ela e percebi que era domingo à tarde, fazia bom tempo e que, portanto, eles iam sair... — Mas tudo bem, eu passo aí depois. Amanhã, se lhe der jeito. Hoje, vou trabalhar e devo chegar muito tarde...
— Quando puder, quando puder...
— Mas, olhe, eu não sei fazer muitas coisas com os micro-ondas. Cá em casa, só o uso para aquecer água ou comida e para descongelar. O resto, nem quero saber. Cozinhar é no tacho e no forno, isso dos micro-ondas a fazerem a nossa comida não é para mim...
— Pois, pois, eu também não quero cozinhar nisto, nem pensar! Uma pessoa nem vê se a comida está a ficar boa...
— Tirou-me a comida da boca!
— Ah, ah, ah, você é tão engraçado!
— Nem me diga isso que fico envergonhado!
— Ah, ah, ah, ai que riso! Você é um ponto, você é um ponto... — e foi para dentro de casa, pisando, invariavelmente, a passadeira da boa educação — Boa tarde e desculpe, boa tarde e desculpe...
— Boa tarde, e não tem que pedir desculpa! Boa tarde, boa tarde...

(continua)

1 comment:

Ana said...

Falta muito para o capítulo dois???