8.8.08
Cenas...
Mas vamos ao fundamental: quase morria a vê-los porque, de repente, a meio do (sejamos amigos) concerto dou comigo indisposto e a dizer à A.: «Não estou bem». Calei-me, retirei-me, ela atrás de mim, a tirar-me a máquina fotográfica e o telemóvel da mão, e eu a retirar-me, quase aos tombos... Fui, fui, fui e quando não pude ir mais, foquei o chão e atirei-me. Apagado. Uma quebra de tensão arrumou comigo. Quando despertei, foco uns óculos, uma boina e uns olhos que não engavam, e ouvi a voz: «Ehhhh pá, eu quando fumo muito também fico assim... Já me deu isso muitas vezes.» Tentei mandá-lo para a quinta pata do cavalo do Napoleão, mas não tinha forças para desatinar e optei por outra estratégia: «Pois, pá, mas eu não fumei nada... Pois, pá, a mim também me dá muitas vezes...» Mas o preocupado só arredou pé quando chegaram três diligentes elementos do piquete da Cruz Vermelha: um quis desapertar-me o casaco que já estava desapertado, outro, acho eu, deixou-se estar a ver o aparato, e o terceiro ria-se para mim enquanto perguntava: «Bebeu? Já comeu? Comeu bem?». Que não, que sim, que sim, respondi-lhe. «Mas vá ali ao posto, que eles medem-lhe as tensões», e eu lá me fui pondo de pé, dois deles a ampararem-me... «Vai lá ao posto», insistiu a A., e para lhe fazer a vontade, eu ia ao posto, e posto isto dou comigo já sem os Cruz Vermelha ao meu lado, às malvas mais o posto, fui para a casa de banho, aliviei a bexiga, lavei a cara e ouvi a A. contar-me: «Ó pá, aquele rapaz, eu ali aflita e grávida, ele e tu falarem, aquilo não fazia sentido, e ele a perguntar-me se eu precisava de ajuda, e eu a pedir-lhe para ir buscar um pacote de açúcar, mas ele só falava contigo e tu a falares para ele...»
Entretanto, a minha tia disse-me ainda para deixar o tabaco.
Já não morro sem os ter visto
21.7.08
Andam feitos!
Ei-los!

12.7.08
Palavra ou expressão cabeludas, precisa-se...
12.6.08
Um uffinho!
7.6.08
O micro-ondas, uma treta por capítulos III - O FIM
A ASEAUX apreendeu no restaurante 14 quilos de carne fornecidos pelos talhos Malade, dos irmãos Malade, Jean e Jacques, gémeos em tudo menos no nome próprio. Colette, em entrevista de quatro páginas ao Le Parisien, pôs as mãos no fogo pelos manos Malade, jurou a pés juntos que o restaurante Gusteau cumpre todos os mandamentos de higiéne, que até nas toilettes se poderia servir a sopa se fosse caso disso, que Remy tem as vacinas em dia, que Linguini caiu à cama por causa de um croissant mal cozido e de um pacote de leite chocolatado que, mesmo estando fora de validade, Linguini insistiu em beber. «No restaurant é que ele non ficô doênt! A ASEAUX vai descôbrri que l'enfezaux Skinner querr darr une grande facade no patrimóne de Linguini e, entón, Skinner vai de cane, et moi, je le dou deux párres de bofettades! Grande stupide», disse Colette, grávida de cinco meses e meio (não, Remy não é o pai...).
Fin
19.5.08
Hormonas
P.S. — Acabo de me arrepender de escrever isto, mas o que está feito, está feito!
6.5.08
Nova votação
22.4.08
Sobrinha
A minha mãe — Então, se o bebé da A. e do tio for uma menina, qual será o nome?
A minha sobrinha — Ó avó, não sei...
AMM — E se for um menino?
AMS — Se for um menino... Já sei! Peter Pan!
Por mim, compro.
Sobrinho
Sobrinho — O bebé já nasceu?
Eu — Ainda não, ainda não... Temos de esperar mais um pouquinho, está bem?
S — Sim, está bem...
O meu sobrinho anda farto de ser o mais novo da família e, recentemente, partilhou essa preocupação com os pais. O assunto chegou aos meus ouvidos e eu prometi ao miúdo que ele ia deixar de ser o mais novo da família...
Cuidado com as vossas almas
Consta que, na véspera, o concerto em Lisboa tinha sido muito bom e fiquei a desejar que o do Porto fosse melhor. Se foi, não sei, mas acredito que não saiu a perder. O homem fez-me recuar aí uns vinte anos, quando o vi pela primeira vez, no Rivoli, com outras sementes más ao lado. Hoje o artista, que já viveu no Brasil, sabe dizer «obri fucking gado» e «obrigado», e em português agradeceu para aí umas mil vezes os aplausos e os delírios do público, sem perceber quase nada do que lhe disseram a ele. Ainda bem para o artista, pior para mim que tinha muito perto um improvável grupo de grunhos para um concerto do género. Acontece.
Foi a terceira ou quarta vez que assisti a um concerto do Nick Cave e deste último guardo as melhores impressões. A minha A. também gostou e o feijãozinho não se queixou nem um bocadinho.
A caminho do 51 anos de idade (22 de Setembro), o australiano continua a ser uma descarga de alta voltagem, como já se tinha (re)visto no projecto Grinderman. Não regressou, propriamente, dos mortos com Dig, Lazarus, Dig!!!, mas desenterrou uma parte dele próprio que, percebe-se agora, esteve a maturar na sombra, nos bastidores das experiências mais recentes, para se libertar outra vez e nos levar a alma a todos... Oh, Deanna, o gajo tinha mesmo razão!!!
14.4.08
A propósito do micro-ondas dos meus vizinhos
Um abraço
Aniversário
Um abração!
12.4.08
Feijão, feijão...
2.4.08
Às estimadas e aos estimados
Um xi, voltarei assim que puder, antes de Novembro, com certeza.
16.3.08
Justificação
O micro-ondas — uma treta por capítulos (II)
Quando li as «Instruções de uso» do micro-ondas dos meus vizinhos, juro que me apeteceu gritar um palavrão daqueles com tantos ou mais cabelos que uma colónia de hippies. Fiquei em brasas com aquelas instruções: se deviam instruir-me a utilizar o aparelho, por que raio continuava eu a mirar com absoluta ignorância para todos os botões do dito cujo? «És um morcão», reprovei-me em pensamento, mas respirei fundo e agitei as folhas de papel e foquei outras vez as letras miúdas e impressas com tinta claramente pobre...
A segunda leitura esclareceu-me. Foi um alívio. Desta vez, não tive razões para cortar o caminho ao pensamento que me descia até à língua, e partilhei o meu inequívoco entendimento das «Instruções de uso» com os meus vizinhos: «Se isto foi feito para ensinar as pessoas a trabalharem com o micro-ondas, agora que acabo de reler estas belas instruções, tenho a certeza que quem escreve estas coisas, quem faz estes quadros e estas ilustrações sofre de um imenso rancor à Humanidade.» O meu vizinho assinou por baixo: «Pois, e em várias línguas...», disse-me, e pus-me a folhear aquele compêndio de nações unidas e a comparar as instruções em português com as instruções em inglês, e as instruções em inglês com as instruções em espanhol, e as espanholas com as francesas, e as francesas com as italianas, e as italianas com as alemãs, e as alemãs com outras já não sei de onde... Mesmo sem perceber patavina de alemão e das outras que eram já não sei de onde, acertei outra vez agulhas com o meu vizinho. «Enfim, para dicionário foleiro, não está mal», e o meu vizinho recebeu bem o passe e, virando-se para a minha vizinha, rematou: «Pois, quando quiseres saber como é que se diz em chinês “pôr a aquecer no micro-ondas”, já sabes onde podes aprender!» Gargalhei.
Mas o caso não era para rir e o riso desapareceu-me mesmo quando olhei para o pátio dos meus vizinhos. Estávamos na cozinha deles, apeteceu-me ir lá fora fumar um cigarro, levei a mão ao bolso direito das calças e... «raios, deixei o tabaco do lado de lá, em casa», pensei, reprimindo automaticamente o impulso de pedir um cigarro à minha vizinha, por vergonha.
Disfarcei, agitei outra vez as folhas de papel, sacudi a cabeça como fazem os boxeurs quando aquecem para os combates e creio que esse gesto assustou a minha vizinha. «Deixe lá, depois o meu neto passa por cá, a ver se põe isto a trabalhar», disse-me, mas descodifiquei assim a mensagem: «Você está a ficar furioso com esses papéis e ainda vai acabar aos murros ao micro-ondas.» Reagi de imediato, num tom educado, mas com as palavras a saírem-me a cem à hora. «Na vossa casa, não mando nada, era o que mais faltava! Mas não saio daqui enquanto não perceber como é que se domina o aparelho! Ia agora fazer-lhes uma desfeita dessas, depois deste tempo todo que aqui estive a incomodá-los! Podiam estar os dois sossegados, a verem a vossa televisão ou a conversar... Nem pensar em ir-me daqui sem pôr isto a trabalhar, nem pensar, isso é que nunca!» Mas, ao fazer finca-pé, percebi que me enganara a medir o alcance das palavras da minha vizinha, e desacelerei e procurei aliviá-la do incómodo que, afinal, ela sentia por pensar que me estava a incomodar com aquele trabalhão de interpretar as malditas instruções do micro-ondas. «Provavelmente, está a ficar tarde para vocês. Estas coisas também não são para se tratarem à noite, mas não pude vir antes. Se preferirem, passo por cá amanhã, de dia, e agora até levava as folhas comigo para as ler melhor, com mais calma...», e o meu vizinho interrompeu-me. «Por nós, esteja completamente à vontade», disse-me, com um sorriso puro e gesticulando para vincar: «A sério, esteja mesmo à vontade. Temos tempo!» A minha vizinha alinhou com o meu vizinho e, também com o sorriso iluminado das boas pessoas, disse-me: «Faça mesmo como entender, só não quero é que se esteja a maçar com isto.»Então, sorri para eles com um sorriso espontâneo, um sorriso que só se abre para alguém de quem gostamos. «Eu também tenho tempo e vocês não me maçam», disse-lhes, voltando-me automaticamente para o micro-ondas. «Ó artista, vamo-nos entender, está bem? Tu, com esses botões todos, pareces mais um casaco», trocei com o aparelho. A minha vizinha fez «eh, eh, eh», o meu vizinho também se riu e eu rendi-me à evidência: as instruções de uso dos electrodomésticos são boas para formar autodidactas, ainda que, no fundo, no fundo, me pareçam muito más até para limpar rabos...
4.2.08
O micro-ondas — uma treta por capítulos
Uma das grandes certezas da vida é o movimento do tempo: vai sempre em frente, e arrasta-nos com ele. Às vezes, tentamos fintá-lo, e o tempo ri-se de nós porque sabe, perfeitamente, que não podemos travar ou inverter a corrente em que ele nos leva. Só a morte é capaz de tamanha façanha, ou talvez não — a confirmação do prolongamento da vida para além da morte derrubará esse pensamento ou crença, mas quem tem pressa de saber o segredo?
Se me perguntarem se fumei qualquer coisa que não seja tabaco, nego por completo e ofereço meio litro de líquido fisiológico aos desconfiados. Toda esta treta vem a propósito dos meus vizinhos, um casal bestial a quem um dos netos ofereceu, há meses, um micro-ondas para os ajudar nas tarefas mais simples e rápidas na cozinha. Por um acerto do destino dá-se o caso de o neto ser meu amigo, daqueles do peito e a quem se perdoa tudo e mais alguma coisa, mesmo quando o mais justo seria descarregar-lhe em cima uma valente dose de porrada — e as vezes que ele já esteve perto disso! — porque não veio tomar aquele café que foi combinado para aí um milhão de vezes...
Eu (e mais alguns amigos) sei que o neto tem andado muito ocupado, mas os avós há meses que fitam o aparelho sem saber como o utilizar. Não, eles sabem muito bem o que é um micro-ondas, já trabalharam com um durante umas férias, mas este é muito diferente do outro, e até a senhora que, semanalmente, passa lá por casa a dar uma arrumação, lhe faz cara feia: «Também não é nada parecido com o que tenho».
Há dias, enquanto fumava um cigarro no pátio da minha casa (lá em casa, fuma-se no pátio, por respeito aos tectos, que são altos e deram um trabalhão a pintar), a minha vizinha assomou à porta exterior da cozinha da casa dela e atirou-me do lado de lá do muro:
— Desculpe, não me faz um favorzinho?
— Claro que sim! — e fiquei a pensar que ela me ia pedir um cigarrinho...
— Quando puder, dava aqui um saltinho só para ver se me consegue explicar como se trabalha com o micro-ondas...
— Mas é que vou já... — e fiquei a pensar que ela e o marido já me tinham dito, há uns tempos, que tinham um micro-ondas, e fiquei, sobretudo, a pensar que o marido me tinha dito, há menos tempo, que ela andava com ideias de aprender a cozinhar no micro-ondas.
— Agora não, deixe estar... Depois, quando tiver mais tempo.
— Agora tenho tempo — e olhei bem para ela e percebi que era domingo à tarde, fazia bom tempo e que, portanto, eles iam sair... — Mas tudo bem, eu passo aí depois. Amanhã, se lhe der jeito. Hoje, vou trabalhar e devo chegar muito tarde...
— Quando puder, quando puder...
— Mas, olhe, eu não sei fazer muitas coisas com os micro-ondas. Cá em casa, só o uso para aquecer água ou comida e para descongelar. O resto, nem quero saber. Cozinhar é no tacho e no forno, isso dos micro-ondas a fazerem a nossa comida não é para mim...
— Pois, pois, eu também não quero cozinhar nisto, nem pensar! Uma pessoa nem vê se a comida está a ficar boa...
— Tirou-me a comida da boca!
— Ah, ah, ah, você é tão engraçado!
— Nem me diga isso que fico envergonhado!
— Ah, ah, ah, ai que riso! Você é um ponto, você é um ponto... — e foi para dentro de casa, pisando, invariavelmente, a passadeira da boa educação — Boa tarde e desculpe, boa tarde e desculpe...
— Boa tarde, e não tem que pedir desculpa! Boa tarde, boa tarde...
14.1.08
Pois, só na rua...

5.1.08
2008, mais um dia
Bom ano, malta!