Havia um bar na Rua da Boavista com nome sugestivo: Forrobodó. Uma noite, pelos meus 16/17 anos e com um ou dois amigos, fui lá ver um concerto, julgo que de uma banda de rock'n'roll. Não me lembro da banda; recordo-me perfeitamente do forrobodó que foi aquela noite. O Paulo «Maluco», mais velho que eu e que me viu crescer atrás do meu irmão punk, estava por lá com uns foleiros sem cabelo que eu sempre abominei e avisou-me: «Ó pá, olha que isto vai ficar feio, os gajos não vão acabar a primeira música, isto vai ser uma confusão dos diabos, mas a ti ninguém te toca que eu não deixo, era o que faltava, ai do gajo que te puser a mão, mas tu põe-te para ali, para a beira da porta e dás à sola logo que a coisa comece, é só deixares passar o portas e piras-te sem pagar». Dito e feito. Confusão geral a meio da primeira música, eu já de mão na porta, pé na rua e pernas quase a bater no pescoço, Rua da Boavista abaixo e a maldizer esses foleiros dos sem cabelo (com quem, noutras circunstâncias, cheguei a travar-me de razões). Às tantas, chamam-me: «É pá, espera aí...» O Paulo «Maluco» explica-se: «F...-se, meu, conheço-te desde pequeno, o teu irmão é um gajo do caraças, é o único punk que respeito e não fiquei descansado, tive de vir atrás de ti, para ver se estavas bem». Na altura, pensei que o Paulo se tinha posto ao fresco com medo de qualquer coisa no meio do forrobodó no Forrobodó, mas muitos anos depois, continuo a cruzar-me com ele e a ouvir dele as mesmas palavras de amigo. Raramente caminhámos juntos, mas crescemos na mesma terra, Leça da Palmeira — a melhor do Mundo —, ali para os lados do Batô — a melhor discoteca do Mundo. Hoje, o Paulo, absolutamente desligado dessas taras e manias imbecis dos cabeças depiladas, ainda me trata com a mesma preocupação e deferência que manifestava nos meus dias de adolescência, com o mesmo jeito de pôr um sotaque frique nas palavras, com o mesmo sentido de amizade que sempre me teve.
Lembrei-me do Forrobodó por causa de me lembrar do Paulo, um bom amigo a quem chamavam de «Maluco».
Não mexam no Batô
17 years ago
2 comments:
Foi sempre assim... Esse rapaz, conhecido como maluco, era mais amigo do amigo, do que,talvez, dele próprio! Sim, porque, ter como companhia cabeças depiladas, não saudável para ninguém, nem para um "maluco". O seu amigo podia estar descansado. Tinha todo o tipo de defesas "malucas" ao seu dispor. Foi muito interessante ler algo sobre esse maluco. Era o verdadeiro Ganda maluco!!!
Em Leça, nessa bonita terra de boa gente e de mar, havia ou ainda há, muitos malucos. Uns mais do que outros. O maior deles todos era, é e continuará a ser o Afonso. Eram tantos "Vagões" e "Vagões" de malucos que não me atrevo a inumerar todos eles para não correr o risco de me esquecer de alguns. Por fim, uns malucos menos Anarquistas, mais domesticados pelo sociedade,-(quem não podia deixar de ser).
Nós!
Vandalizando aqui e ali, pulando esta e aquela cerca, partindo este e aquele vidro, saltando este e aquele carro, partindo esta e aquela máquina de cerveja-(claro depois de estarmos servidos e não haver "cheta" para mais), pintando esta e aquela parede, passeando o tijolo cheio de Exploited, Meteors, Guana Batz, Crass, Mata Ratos, entre tantos outros, por essas e por aquelas ruas de Leça! Viajar pelo norte com comprimidos para as alergias de 7,5, entortar verguinhas nos costados, em suma, não nos podemos queixar de ter deixado passar a adolescência em vão! Adquirimos experiência em quase todos os galhos. Eramos uns Gandas malucos........
Mais um bocadinho e dava um trambolhão de tanto rir! E ri-me pela felicidade que senti ao recordar esses momentos que vivemos juntos, dias loucos, noites ainda mais loucas, de exposição a mil riscos e perigos, mas repleta de uma amizade perpétua. E no fundo, é isso que valorizamos, a amizade, quando nos recordamos de «toda a merda» que fizemos juntos!
A ti, Cristiano, e a todos os meus amigos, um abração do tamanho de um planeta bem maior do que este!
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