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19.4.07

O motorista de táxi


Eu sei muito bem que tenho concorrência fortíssima em matéria de contar histórias com/sobre taxistas, mas esta é fresquinha e tem pronúncia do Norte e tudo, carago. Passou-se assim: uma noite destas fechei a loja no trabalho e dei corda às sapatilhas (novas e «giras», como fez toda a questão de me dizer a minha A.) para ir dar um abraço a um bom amigo que celebrava o seu aniversário. Decidi ir de táxi... Disseram-me que os carros andam mais depressa que as sapatilhas. Segue-se a viagem, em formato de escuta telefónica da PJ:

Táxi — Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, iiiinnnnnnc.
Porta do táxi — Chlunc... Nhééééé... Clanc!
Cinto de segurança — Ssssslllllllllllt...
Eu — Boa noite, amigo!
Cinto de segurança — Clic!
Taxista — Boa noite!
Eu — Olhe, vou para a Praça da República... Quer dizer, na verdade vou para uma rua à beira da Praça da República, mas o problema é que não sei o nome da rua... Mas posso ficar na Praça da República, que vai dar ao mesmo...
Taxista (já com a viatura em marcha e a central aos gritos) — Muito bénhe! Bámos à Praça da República e depois metemos prá rua...
Eu — Pois, mas é que essa rua... Não dá para entrar pela praça, a rua desemboca na praça... Está a ver o Pingo Doce da praça? Um pouco mais à frente da postura dos táxis, do lado direito, depois do cruzamento com Álvares Cabral...
Taxista — Olhe, já se lixaram...
Eu — Como?!
Taxista — Num biu ali o carro da polícia... Aqueles já comem. Cámbada do caral...
Eu — Pois, andam para aí a dar-lhe chispa...
Taxista — Esses polícias do caral... Mas, ó amigo, pode falar que eu estou a oubire... Cámbada de merda... Noutro dia f...-me béim, esses filhos da p... Bócê num quer ir para Mártires da Liberdade? Podemos ir a Cedofeita e à rua dos Bragas... Débe ser para aí que bocê bai... Mas olhe que me f...ram mesmo...
Eu — Às tantas é isso, devo ir para aí, para onde está a dizer, mas posso ficar na Praça da República...
Taxista — É que eu binha ali pró Marquês, mas deu-me buntáde d'ir à casa de bánho, e eu só posso ir à minha, porque num posso limpar o cu com papel, e fiz inbersóm de marcha e, carago, um gajo tem mesmo azar, num bi a polícia, que me mándou parar... Eu disse-lhe, «ó sô guarda, eu tou aflito, preciso d'ir à casa de bánho e só posso ir à minha porque num posso usar papel», mas o gajo disse-me «entóm bócê faz assim uma inbersóm», e eu disse-lhe «mas num binha ninguénhe, foi em seguránca e porque estou aflito», mas nada, ele começou logo a escreber...
Eu — Pois...
Taxista — Pois, nada... Eu disse ó gajo, «é que, tá ber, tibe de ser operado, muitas pessoas pensam que é coisa dos intestinos, mas num tem nada a ber, era uma coisa que tinha, que pode ser até um pêlo incrabádo, e eu num posso usar papel, tenho de labar no bidé, como as mulheres, sô guarda, e com sabóm de barra», mas o gajo nada...
Eu — Pois...
Taxista — Entóm bámos a Cedofeita que eu sei o caminho...
Eu — Vá à vontade, amigo, vá à vontade...
Taxista — Olhe, eu bem disse ó gajo a berdade, mas num adiantou... É que, tá ber, fui operado, muitas pessoas pensam que é coisa dos intestinos e num tem mesmo nada a ber, é uma coisa que se forma e tánto pode ser no cu como noutro lado, isto num é nada com os intestinos...
Eu — Pois, pois... Compreendo, compreendo, amigo, é um desconforto do caraças...
Taxista — Ui, mas é que bócê nem imagina amigo... Tá ber, débe ser para aquela rua que bócê quer ir, num é?
Eu — É isso, é... Fantástico!
Taxista — Porque só me posso mesmo labar com sabóm, enquánto tiber os pontos, diz que é melhor assim, porque o papel raspa e um gajo pode ganhar ferida... Com o sabóm nom, mas é f...ido, um gajo tem d'ir pró bidé como as mulheres... E esses gajos, a polícia, num quer saber, f...-se, cámbada do caral... Até lhe mostrei esta almofadinha, tá ber, é pra num magoar tánto o cu... Mas nada, f...-se lá pró caral...
Eu — Claro, claro...
Central — Marechal Gomes da Costa... Zzzt! Marechal Gomes da Costa... Zzzt!
Taxista — Beja lá, é aquie?
Eu — Isto mesmo, é nesse prédio aí... Mais à porta não podia ser...
Táxi — Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, iiiinnnnnnc.
Taxista — Ora muito bem...
Cinto de segurança — Chloc... Ssslllllllllt, ponc.
Eu — Ó amigo, pague-se...
Porta do táxi — Chlunc... Nhééééé...
Taxista — Olhe que tem cinquenta cêntimos de troco...
Eu — Deixe estar, fica para a multa ou para o sabão. Boa noite, amigo...
Taxista — Obrigado, boa noite...
Porta do táxi — Nhééééé... Clanc!
Táxi — Iiinc. Vrrrrrrrrrrrrrrrrr...

7 comments:

milletras said...

Isto está a ganhar dimensão internacional. E açucarado, que a Lily (ou o?) diz que tem um quarto doce...

milletras said...

Vão ver o quarto da Lily, virado a sol nascente...

Ana said...

AHAHAHAHAHAHA. BIB'Ó PUORTO, CARAGO!!

charlote said...

Continuo sem acreditar que isto foi verdade, embora saiba que foi... Mas ele há coisas que parecem impossíveis. A realidade continua a ultrapassar a ficção...

Anonymous said...

Tu contaste-me isto tudo e eu não ouvi ou só contaste metade? É que sou gaja para admitir que esta história de taxista é melhor do que as minhas (se bem que aquela do pára-lamas...).

milletras said...

Inês, não sei se te contei isto tudo, mas julgo ter ilustrado a situação quando falei contigo. Em todo o caso, a história é esta e só fico à espera que me envies depressinha a do pára-lamas, que deve ser um sucesso!

Anonymous said...

Partilhamos isso no jantar de sexta ; )