Total Pageviews

18.12.07

Brinde

Com o Natal à porta e o ponto final neste ano de 2007 ao virar da esquina, as tretas do costume, Boas Festas, muito bacalhau na mesa, rios de vinho, prendas no pinheirinho de ramos verdinhos ou no sapatinho, tanto faz, retirem os exaustores das chaminés a bem do simpático das barbas brancas que trabalha para a coca-cola e mais não sei quantas multinacionais, nacionais, regionais e afins, paz e amor na Terra, sais-de-fruto para a digestão, volta e meia uma meia-volta à mesa para carregar nos doces, bolo-rei com brinde e fava, e chiça!, à fava mais o brinde, lá se foi um dente, e um brinde a todos, aos que por aqui passam e deixam marca, aos que passam e não deixam marca, aos que não passam, e assim se passou mais um ano, mas antes deste acabar, talvez ainda passe por aqui... Vão passando por cá, e passem bem, amigos!

2.12.07

Concerto

Bom, muito bom para mim não ter fixado o nome do anfitrião que subiu ao palco do Pavilhão Municipal de Vila Nova de Gaia para anunciar a entrada de Peter Murphy no recente concerto do carismático líder dos Bauhaus em Portugal. Toda a banda, grupo rock, rancho folclórico, quinteto de jazz, dueto de pistolas ou orquestra de tachos tem um carismático líder. É o que me dizem, para aí desde sempre, os jornais e as revistas, os tópes mais, os programas das rádios, etc, etc..., quando querem designar o rosto dos rostos, o artista entre artistas, a figura das figuras dos agrupamentos, conjuntos ou outros aglomerados musicais...
O carismático líder só tem uma designação alternativa: o líder mítico dos... Mas é mau para o artista chegar a este ponto: por regra, esta é a designação que, com maior ou menor controvérsia à mistura, assenta bem em figuras como John Lennon, Jim Morrison, Kurt Cobain, Freddie Mercury, Raúl Indipwo, entre outros falecidos. Ser líder mítico, portanto, é o contrário de estar vivo, dir-nos-á Lili Caneças, indiscutível líder mítica da socialite portuguesa, que com certeza anda encantadérrima com o regresso de Santana aos tiroteios de pólvora seca entre a oposição e o governo na AR que nos tira o ar. Santana, sem guitarra mas com muita música para dar e vender, está de regresso ao Parlamento como líder carismático do grupo parlamentar do PSD agora carismaticamente liderado por Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, câmara esta que, foi anunciado antes de Peter Murphy entrar em palco, tem a pretensão de fazer do seu município uma alternativa a Lisboa em matéria de grandes centros nacionais de entretenimento público.
Acho bem, porque estou pelos cabelos de ver tudo o que é espectáculo ou concerto de esquina ser concentrado em Lisboa. Acho mal, porque não fica nada, mas mesmo nada bem pôr um anfitrião de voz roufenha e oportunista em palco antes de um concerto para fazer campanha eleitoral — como já disse, o melhor, para mim, desse momento, foi não ter fixado o nome desse aspirante a político, ainda que à minha volta houvesse quem o conheça.
Se houve esforço autárquico para promover o concerto, aplaudo a iniciativa com alguma contenção: fica o exemplo para outros concelhos que nada ou pouco fazem. Mas, no fundo, as câmaras existem e alimentam-se de erário público para servirem os cidadãos, e à partida não andamos por aí a aplaudir todo o serviço que nos tem de ser prestado por direito constitucional. Também não ovacionamos o padeiro que nos deu o pão para a mão depois de receber o nosso dinheiro, e até entendo que os padeiros merecem muito mais o meu aplauso do que qualquer político do planeta.
Não faço a mínima ideia em que pé estão os pensamentos de Menezes sobre a câmara de Gaia, desconfio apenas que o homem dificilmente se recandidatará à presidência da autarquia nas próximas eleições e até já terá um potencial sucessor ao seu cargo na câmara, mas cada marco na história tem o seu tempo para ser erguido (neste caso, empossado), e o momento é feito de outras coisinhas. Como pôr uma figura de voz roufenha e oportunista a anunciar pretensões em tom de campanha eleitoral a uma plateia bem compostinha de um concerto. Pretensões legítimas, mas passíveis de caírem no ridículo: se a câmara e todo o circuito laranja de Gaia aspira ao estatuto de capital da animação do Norte, deve começar pelo básico — uma boa sala para espectáculos, daquelas com acústica e tudo. Coisa que o multifuncional pavilhão municipal não é e não tem, por muito que custe e doa aos idolatradores gaienses (e não só) do actual carismático líder do PSD.

8.10.07

Música para o tio das botas



Há dias, a minha sobrinha, sete anos de inesgotável energia, prometeu dedicar-me «mil músicas, tio», quando o violoncelo não tiver segredos para ela. Já o meu sobrinho, quatro anos de inesgotável energia, diz-me, com olhos grandes a brilhar, que «ó tio, tu podes ser o Gato das Botas!»


O mundo pula e avança


Por contingências que não são para aqui chamadas, a cadência de tretas tem sido manifestamente baixa, para não dizer nula. Acontece. E o mundo não tem deixado de pular e de avançar por causa disso. Felizmente para a Terra, este microespaço da blogosfera não é fundamental ao pulsar planeta.




25.8.07

Parabéns a você...


Há dias, enchemos a casa para celebrar o aniversário da A. Foi brutal. Acho que até tive gente pendurada nas orelhas, e só podia ser gente, porque não uso brincos, nem costumo brincar com estas coisas tão sérias.

Fiquei feliz: a casa aguentou-se firme e as gatas do meu irmão, que gozam as suas primeiras férias no estrangeiro, em 15 anos de muitas miadelas e quilos e quilos de Whiskas, colaboraram com meiguices e misturaram-se com a malta.

Fui ao céu: a absoluta felicidade da A. (estupendamente descrita pela própria no seu blog) era a prenda que sempre desejei para ela neste aniversário tão especial. Soa a frase feita, mas quero lá saber, cansei de ser sexy como as outras que (também) não vi no Paredes de Coura, e para o ano, minha linda, há mais e melhor!

Ausência...


A edição deste ano do festival Paredes de Coura foi engraçadinha... Choveu incomparavelmente menos, o Morrissey não se pôs a andar do palco no começo do pânico porque não fazia parte do cartaz, a cervejinha estava fresquinha, o golfinho Miguel Ângelo passeou-se pela zona VIP, potenciando saudáveis momentos de escárnio, havia mais sopinha e broa prá vipalhada, havia ainda uns bolinhos muito elogiados, mas que não cheguei a provar, havia uma saia muito colorida com Che Guevaras estampados, havia KFC's para disfarçar a fome, havia gente para a mundial, havia os siquezinhos radicais e havia os Sonic Youth a fechar tudo e mais alguma coisa. Por um elementar respeito à privacidade de cada um, reservo-me o direito de omitir a explicação para a minha ausência nesse bom final do Paredes de Coura de 2007 — como facilmente se comprova na fotografia. Onde estava eu nessa altura? Não é um segredo, mas também não vou ser eu o dedo duro que vomitará a justificação... Eu só queria mesmo era desabafar.

17.8.07

Puxão de orelhas


Entre a última e esta treta já passou um tempinho bem aproveitado para gozar férias (duas vezes!), trabalhar pelo meio, celebrar aniversários, encher a casa de gente, mudar a disposição do sofá na sala, lavar roupa, cuidar das gatas do meu irmão - gatas mesmo, nada de confusões -, fumar uns cigarros, comer, beber, dormir, cozinhar, tomar banho, passar a ferro, dizer disparates, fazer disparates, desatinar, maldizer o mundo, agradecer ao mundo, ler livros, ver filmes, ouvir música, etc..., etc..., etc...
Só não tive mesmo tempo para passar por aqui, o que já me valeu um puxão de orelhas... A minha vénia, acompanhada de um pedido de desculpas à Inês.

19.5.07

«Bike te faz bem!»


O meu amigo Cristiano meteu-se a brios e por estes dias foi de bicicleta do Porto a Madrid, num pelotão pequeno, ele e mais uns colegas do trabalho. Há uns meses, quando ele me falou sobre essa empreitada, dei-lhe moral, mas só depois de fazer aquilo que os amigos devem fazer sempre nestas circunstâncias: desatei no gozo, «bike te faz bem», chalaceei, chegando a admitir-lhe que eu passaria a acreditar em Fátima se ele realmente fosse de bicicleta a Madrid.

A esta hora, e sem pretender ferir consciências ou beliscar devotos, que a gente nunca sabe quem anda por aí a espreitar os blogues à malta, Fátima não ganhou mais um fiel. Mas passei a admirar ainda mais o meu amigo Cristiano pela perseverança dele. Saber que ele foi a Madrid em cima de uma bicicleta e a pedalar mesmo os quilómetros todos que vão do Porto à capital espanhola, não me surpreendente nadinha. E é assim porque este meu amigo há muitos anos colecciona momentos de determinação, de uma força de vontade tão forte que chega a ser contagiante.

Estou contente pelo Cristiano, um bestial, um irmão dos irmãos, um irmão dos amigos e um tipo com uma pedalada do caraças para ser e fazer outros felizes. Pessoas assim, julgo, são mais raras que milagres. Sem ofensa, prefiro acreditar nas pessoas.

PS — Acabo de apanhar o Cristiano de agulha espetada no braço. «É pá, liga-me daqui a um bocadinho... Estou a dar sangue», justificou-se.

6.5.07

Já hera!


O FC Porto ganhou ao Nacional, o Boavista perdeu com o Beira-Mar, o Toninho pôs música no Disco Volante, o Vasco fez anos, o Alberto limpou o sebo à concorrência na Madeira, o Sarkozy fez o mesmo em França, o people andou pelas ruas a manifestar-se pela legalização da marijuana, e já que estamos a falar de erva, a hera do pátio lá de casa já era, o que vale é que o tempo está melhor, lá me safei da distracção e consegui arranjar os três cêdês do Público em dois quiosques, a cantiga é uma arma, evidentemente, mas era escusado o filme do Fame a passar na RTP 1, a série ainda vá que não vá, pronto, a minha A. pelo menos ia gostar, e se a rapariga andar feliz, melhor, raios partam aquele mosquito que a desasossegou e a marcou bem marcadinha, há-de pagá-las, o filho de oitenta bzzzs, e pergunta-se quem lê isto se estou com os parafusos todos, mas pronto, deixem lá, disse ao Vítor que ia despachar qualquer treta aqui no blog, já tinha prometido o mesmo ao Cristiano, depois da nossa recente incursão pela Galiza, quase mar adentro e com o mar a inundar-nos o prato, estava bom o peixinho em Baiona, terra de meias, era o que dizíamos em miúdos, malandrices, enfim, outros tempos, sem internétes, havia era os ZX Spectruns e os Timéxes, os Commodoras dos amigos e o caraças, e se fosse um Reininho a escrever isto, ah! que o gajo é um espectáculo, mas o devaneio é meu, ah! que o gajo é maluco ou foi à manifestação, e eu sem lá ter posto os pés, mas tanto me faz, quero lá saber, e se quiserem mesmo saber, para mim, nem sumol, nem coca-cola, mudar de vida disse o José Mário Branco, quem foi vê-lo e ouvi-lo à Casa da Música descodifica, quem não foi, pronto, não foi, aborrece-me é saber que a minha mãe esteve sozinha à noite numa paragem de autocarro uns bons três quartos-de-hora à espera de um autocarro que não apareceu, safou-se de táxi, e é para isto que a malta paga o bilhetinho ou o passe, para sofrer de STCP, sim, como também dizíamos, já mais crescidinhos, Somos Transportados Como Porcos, tomem lá, andem a horas, resmungávamos, e não havia o trânsito que há hoje, não havia a poluição que há hoje, e nós muito felizes em Leça da Palmeira a ter desejos de aventura pelas ruas do Porto, que na altura o Porto era muito mais fixe, carago, germinava vida na cidade, esta cidade que agora se põe cidade-fantasma à noite, ou será de mim, pergunto, porque quanto mais a atravesso à noite, menos gente vejo, e a que vejo, sinceramente, arrepia-me, sendo que toda a gente tem direito à existência, também não vamos ser extremistas, mas pronto, arrepia-me, e o melhor é acabar por aqui porque eu próprio já não sei onde isto vai, que se lixe, vou pôr o ponto final já aqui à frente.

PS - Heras, descubram-nas nestes links:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hera

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hedera_helix

28.4.07

Mudam-se as palavras

«Autoridades policiais atentas à concentração pró-salazarista em Santa Comba Dão

28.04.2007, Maria Albuquerque

Manifestação é hoje, no Largo do Município, em defesa do anunciado Museu do Estado Novo. GNR reforça meios a manter no local

Saudosistas de António Oliveira Salazar concentram-se esta tarde, a partir das 14h00, no Largo do Município de Santa Comba Dão, em defesa do anunciado Museu do Estado Novo e para celebrar o 118.º aniversário do nascimento do ditador. Para garantir a manutenção da "ordem e da tranquilidade públicas", a Guarda Nacional Republicana (GNR) vai reforçar os meios e manter no local o "dispositivo adequado" à situação.O comandante da GNR no distrito de Viseu, tenente-coronel Amaral Dias, não fez qualquer estimativa sobre o número de pessoas que poderão estar presentes na concentração convocada pelo Movimento Nacionalista Terra Identidade e Resistência.(...)»

Extraí este pedacinho de uma notícia publicada na edição de hoje do «Público». Quando a li pela primeira vez, dei comigo a coçar a cabeça. Ora, como está provado cientificamente que não tenho piolhos, nem anda praga na cidade do Porto, descobri depressa o parasita que me provocava o gesto... «Movimento Nacionalista Terra Identidade e Resistência».
Por mim, as pessoas são livres de pensar e de dizer o que pensam e compreendo que haja saudosistas, que haja prós-isto ou prós-aquilo, mas dá-me cabo da retina ver estas duas palavras no mesmo lado da trincheira: nacionalista e resistência. Sempre achei que a primeira andava nas ruas, monstruosa e de costas quentes, à procura da outra para a calar. Enfim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se as palavras, mudam-se as memórias, mudam-se as histórias...

27.4.07

José Mário Branco


Na segunda-feira, dia 30 de Abril, à saída deste mês e à entrada de mais um Maio maduro, José Mário Branco vai actuar na Casa da Música, acompanhado por uma carrada de gente menos ilustre ─ e devo ser sincero, alguns dos que vão subir ao palco não faço a mínima ideia quem são. Para mim é irrelevante quem fará pano de fundo neste concerto, o que me interessa mesmo é ver e ouvir José Mário Branco, referência de irreverência, resistência, liberdade e, também muito importante para mim, alguém que caminhou lado a lado com José Afonso. Há trabalho de José Mário Branco na obra superlativa de Zeca, e se não tive oportunidade de ver Zeca ao vivo ─ por desvios de destinos, nem em pequeno passei em espectáculos dele (e lembro-me muito bem do ar pesado lá em casa quando Zeca morreu) ─, tenho agora a oportunidade de rever José Mário Branco, que me recordo (e é uma recordação assim fraquinha, fraquinha) de ter visto em criança. Portanto, na noite do dia 30 de Abril, à entrada de mais um Maio maduro, lá estarei na Casa da Música para o concerto de José Mário Branco. E o resto serão cantigas...

19.4.07

O motorista de táxi


Eu sei muito bem que tenho concorrência fortíssima em matéria de contar histórias com/sobre taxistas, mas esta é fresquinha e tem pronúncia do Norte e tudo, carago. Passou-se assim: uma noite destas fechei a loja no trabalho e dei corda às sapatilhas (novas e «giras», como fez toda a questão de me dizer a minha A.) para ir dar um abraço a um bom amigo que celebrava o seu aniversário. Decidi ir de táxi... Disseram-me que os carros andam mais depressa que as sapatilhas. Segue-se a viagem, em formato de escuta telefónica da PJ:

Táxi — Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, iiiinnnnnnc.
Porta do táxi — Chlunc... Nhééééé... Clanc!
Cinto de segurança — Ssssslllllllllllt...
Eu — Boa noite, amigo!
Cinto de segurança — Clic!
Taxista — Boa noite!
Eu — Olhe, vou para a Praça da República... Quer dizer, na verdade vou para uma rua à beira da Praça da República, mas o problema é que não sei o nome da rua... Mas posso ficar na Praça da República, que vai dar ao mesmo...
Taxista (já com a viatura em marcha e a central aos gritos) — Muito bénhe! Bámos à Praça da República e depois metemos prá rua...
Eu — Pois, mas é que essa rua... Não dá para entrar pela praça, a rua desemboca na praça... Está a ver o Pingo Doce da praça? Um pouco mais à frente da postura dos táxis, do lado direito, depois do cruzamento com Álvares Cabral...
Taxista — Olhe, já se lixaram...
Eu — Como?!
Taxista — Num biu ali o carro da polícia... Aqueles já comem. Cámbada do caral...
Eu — Pois, andam para aí a dar-lhe chispa...
Taxista — Esses polícias do caral... Mas, ó amigo, pode falar que eu estou a oubire... Cámbada de merda... Noutro dia f...-me béim, esses filhos da p... Bócê num quer ir para Mártires da Liberdade? Podemos ir a Cedofeita e à rua dos Bragas... Débe ser para aí que bocê bai... Mas olhe que me f...ram mesmo...
Eu — Às tantas é isso, devo ir para aí, para onde está a dizer, mas posso ficar na Praça da República...
Taxista — É que eu binha ali pró Marquês, mas deu-me buntáde d'ir à casa de bánho, e eu só posso ir à minha, porque num posso limpar o cu com papel, e fiz inbersóm de marcha e, carago, um gajo tem mesmo azar, num bi a polícia, que me mándou parar... Eu disse-lhe, «ó sô guarda, eu tou aflito, preciso d'ir à casa de bánho e só posso ir à minha porque num posso usar papel», mas o gajo disse-me «entóm bócê faz assim uma inbersóm», e eu disse-lhe «mas num binha ninguénhe, foi em seguránca e porque estou aflito», mas nada, ele começou logo a escreber...
Eu — Pois...
Taxista — Pois, nada... Eu disse ó gajo, «é que, tá ber, tibe de ser operado, muitas pessoas pensam que é coisa dos intestinos, mas num tem nada a ber, era uma coisa que tinha, que pode ser até um pêlo incrabádo, e eu num posso usar papel, tenho de labar no bidé, como as mulheres, sô guarda, e com sabóm de barra», mas o gajo nada...
Eu — Pois...
Taxista — Entóm bámos a Cedofeita que eu sei o caminho...
Eu — Vá à vontade, amigo, vá à vontade...
Taxista — Olhe, eu bem disse ó gajo a berdade, mas num adiantou... É que, tá ber, fui operado, muitas pessoas pensam que é coisa dos intestinos e num tem mesmo nada a ber, é uma coisa que se forma e tánto pode ser no cu como noutro lado, isto num é nada com os intestinos...
Eu — Pois, pois... Compreendo, compreendo, amigo, é um desconforto do caraças...
Taxista — Ui, mas é que bócê nem imagina amigo... Tá ber, débe ser para aquela rua que bócê quer ir, num é?
Eu — É isso, é... Fantástico!
Taxista — Porque só me posso mesmo labar com sabóm, enquánto tiber os pontos, diz que é melhor assim, porque o papel raspa e um gajo pode ganhar ferida... Com o sabóm nom, mas é f...ido, um gajo tem d'ir pró bidé como as mulheres... E esses gajos, a polícia, num quer saber, f...-se, cámbada do caral... Até lhe mostrei esta almofadinha, tá ber, é pra num magoar tánto o cu... Mas nada, f...-se lá pró caral...
Eu — Claro, claro...
Central — Marechal Gomes da Costa... Zzzt! Marechal Gomes da Costa... Zzzt!
Taxista — Beja lá, é aquie?
Eu — Isto mesmo, é nesse prédio aí... Mais à porta não podia ser...
Táxi — Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, iiiinnnnnnc.
Taxista — Ora muito bem...
Cinto de segurança — Chloc... Ssslllllllllt, ponc.
Eu — Ó amigo, pague-se...
Porta do táxi — Chlunc... Nhééééé...
Taxista — Olhe que tem cinquenta cêntimos de troco...
Eu — Deixe estar, fica para a multa ou para o sabão. Boa noite, amigo...
Taxista — Obrigado, boa noite...
Porta do táxi — Nhééééé... Clanc!
Táxi — Iiinc. Vrrrrrrrrrrrrrrrrr...

17.4.07

Vizinhos

Na minha casa nova, no Porto, posso dizer que me sinto mesmo bem e que tenho uns vizinhos cinco estrelas. Eles no pátio deles, eu no meu pátio, muitas vezes ficamos à conversa, sobretudo eu com o meu vizinho, que tem sempre uma história nova para me contar, uma recordação para partilhar, um sorriso para oferecer e até mesmo umas flores para me dar, «para pôr a casa mais bonita para vocês, para que sejam ainda mais felizes aí, como o casal que aí já viveu, que era mesmo muito, muito feliz». Construí, rapidamente, cumplicidade com os meus idosos vizinhos, quase os vejo como espécie de meus avós, eu que não conheci os meus avós, mas que ainda andei ao colo da minha avó paterna, como me dizem umas fotos antigas que a minha querida mãe guarda religiosamente. Enfim, posso dizer que eu e a minha A. tivemos uma sorte bestial de ter uns vizinhos tão sensacionais.
Mas há dias, passou-se assim: eu e a A. fumávamos um cigarrito a um canto do pátio onde o sol bate pelo princípio da tarde, quando o meu vizinho surge no pátio dele. Eu vestia roupão, ainda não tinha tomado banho, e atrás de mim secava roupa que metemos a lavar, julgo eu, na noite da véspera ou logo pela manhã. Agitei-me, dei um jeitinho ao roupão, espreitei por entre os vasos e uns fetos que trepam o muro que separa os dois pátios, abri um sorriso, preparei um «boa tarde» e... calei-me bem caladinho quando percebi que o meu vizinho, apesar de ter olhado para mim, não me viu. Fiquei e mantenho-me convencido que ele me confundiu com roupa a secar.

Tormes

Ainda me passou pela cabeça ir buscar o livro para reproduzir uma ou outra passagem do mesmo, mas reflecti com os meus botões (incluindo os do fogão, porque enquanto pensava nisto despachava dois peixinhos assados com batatas, só para testar o forno, que é usado, mas novo na minha vida e, comprova-se, está muito bom e recomenda-se) e decidi que, se quiserem mesmo saber ou rever, vão mesmo vocês procurar o livro e leiam-no de ponta a ponta. Eu já o reli e sempre descobri nele qualquer coisa que me escapou na leitura anterior. Por exemplo, certa altura ─ foi para aí na segunda vez que o li ─ deu-me para procurar informação e saber que, cem anos depois de Jacinto, podemos fazer, mais ou menos, o mesmo caminho que Eça de Queiroz fez quando visitou Tormes (Santa Cruz do Douro) pela primeira vez e reproduziu essa experiência em «A Cidade e as Serras», uma das obras póstumas do escritor ─ Eça nasceu em 1845 na Póvoa de Varzim e morreu a 16 de Agosto de 1900, em Neully, arredores de Paris, França.
Fiz o Caminho de Jacinto completo para aí umas três vezes e já o fiz parcialmente para aí outras tantas. Há dias, fiz o Caminho de Jacinto completo, novamente e na excelente companhia de um dos meus melhores amigos (daqueles que classificamos como irmãos) e um amigo desse meu amigo. Subimos a Tormes com calor, descemos debaixo de chuva e trovoada, ou seja fizemos a coisa... em dois tempos e com todo o tempo do mundo para nos perguntarmos: que raio andou a fazer a câmara de Baião nos últimos anos para se esquecer (ou lembrar-se de se esquecer) do Caminho de Jacinto, da Casa de Tormes, de Eça de Queiroz, das pessoas que dedicam a vida àquela terra, àquela casa, à memória do escritor, etc, etc... A câmara, nas últimas autárquicas, mudou de mãos e diz que está em marcha um plano para transformar radicalmente a zona, para lhe atrair vida e turismo. Há um hotel quatro estrelas a nascer por ali, as casas da REFER também vão ter parte no assunto, mas quem é de lá queixa-se do andamento das coisas e faz mesmo lembrar Jacinto quando este dizia ao amigo inseparável: «Que seca, José Fernandes!»
Já o meu amigo que é como meu irmão comentou: «É coisa com três velocidades, devagar, devagarinho e parado». Esteve bem o meu amigo, pelo menos a avaliar pela concordância do nosso simpático interlocutor, pessoa da terra, da serra que há mais de cem anos absorveu o Jacinto de Paris, ou seja, ele próprio, Eça de Queiroz.

PS O que tem tudo isto a ver com a cidade do Porto? Bem, estava no Porto quando fui esta última vez a Tormes, o meu amigo que é como meu irmão é agente de condução do Metro do Porto e o amigo dele também. Está justificado!

3.4.07

O Paulo «Maluco»

Havia um bar na Rua da Boavista com nome sugestivo: Forrobodó. Uma noite, pelos meus 16/17 anos e com um ou dois amigos, fui lá ver um concerto, julgo que de uma banda de rock'n'roll. Não me lembro da banda; recordo-me perfeitamente do forrobodó que foi aquela noite. O Paulo «Maluco», mais velho que eu e que me viu crescer atrás do meu irmão punk, estava por lá com uns foleiros sem cabelo que eu sempre abominei e avisou-me: «Ó pá, olha que isto vai ficar feio, os gajos não vão acabar a primeira música, isto vai ser uma confusão dos diabos, mas a ti ninguém te toca que eu não deixo, era o que faltava, ai do gajo que te puser a mão, mas tu põe-te para ali, para a beira da porta e dás à sola logo que a coisa comece, é só deixares passar o portas e piras-te sem pagar». Dito e feito. Confusão geral a meio da primeira música, eu já de mão na porta, pé na rua e pernas quase a bater no pescoço, Rua da Boavista abaixo e a maldizer esses foleiros dos sem cabelo (com quem, noutras circunstâncias, cheguei a travar-me de razões). Às tantas, chamam-me: «É pá, espera aí...» O Paulo «Maluco» explica-se: «F...-se, meu, conheço-te desde pequeno, o teu irmão é um gajo do caraças, é o único punk que respeito e não fiquei descansado, tive de vir atrás de ti, para ver se estavas bem». Na altura, pensei que o Paulo se tinha posto ao fresco com medo de qualquer coisa no meio do forrobodó no Forrobodó, mas muitos anos depois, continuo a cruzar-me com ele e a ouvir dele as mesmas palavras de amigo. Raramente caminhámos juntos, mas crescemos na mesma terra, Leça da Palmeira — a melhor do Mundo —, ali para os lados do Batô — a melhor discoteca do Mundo. Hoje, o Paulo, absolutamente desligado dessas taras e manias imbecis dos cabeças depiladas, ainda me trata com a mesma preocupação e deferência que manifestava nos meus dias de adolescência, com o mesmo jeito de pôr um sotaque frique nas palavras, com o mesmo sentido de amizade que sempre me teve.
Lembrei-me do Forrobodó por causa de me lembrar do Paulo, um bom amigo a quem chamavam de «Maluco».

Estação do Bolhão!

Está decidido: não há estação do metro mais portuense que a estação do Bolhão!

Ribeira de perdição

Tenho saudades de ir à Ribeira, de beber uma cervejinha no Está-se Bem e da paciência do sr. Adriano e do sorriso permanente da dna. Carminho, de fazer o circuito dos bares com os amigos — Aniki-Meia Cave-Mercedes —, de subir, às vezes, ao Ribeirinha e de parar, depois e quase sempre, no Cubo, com a garrafa de litro ou simplesmente já sem nada para beber mas ainda com muito para conversar, de fazer horas para o autocarro, de regressar a casa sem pressa de cair no sono, de esperar com ansiedade pelo fim-de-semana seguinte, por uma rotina que nunca cansava, por uma Ribeira de perdição que deixaram que se perdesse.

1.4.07

Tem dias!

A música chegou ao fim e ela estava em lágrimas. Um poema, um bom poema, é assim mesmo, toca-nos na alma. E naquele momento, só queria ser aquele poema que lhe tocou assim tão fundo na alma. Mas pronto, nem sempre é possível e também eu tenho dias e noites em que não me recomendo...

(Ah, e com esta, faço um intervalo nas minhas experiências vividas na Casa Música)

Porto Sentido à nossa moda!

«Quem bem
e atrabessa o rio
Junto à Serra do Pilar
Bê um belho casario
Que se estende
até ao mar...»

Depois de passar pela Casa da Música, onde fui ver o Rui Veloso actuar para uma plateia repleta de gente-set, decidi que a melhor forma de limpar a alma era trocar o vês pelos bês ao cantar o Porto Sentido. E conclui que, realmente, esse hino à cidade deveria ser mesmo assim, cantado com bês no lugar de todos os vês, mas o Tê é que é o autor da letra e, pronto, respeitemos o homem e a sua obra, coisa que, claramente, a plateia de gente-set que encheu o auditório principal da Casa da Música não fez, nem em relação a Tê, nem em relação a Veloso. O Rui deu-lhes muita música e tocou muita música da boa. E essa gente-set, acreditem, apreciou mais... a primeira.

Onde o leão afiambra a águia

Há dias, fui à Casa da Música. Fui duas vezes seguidas e até me vesti melhor um bocadinho para ir lá, nestas vezes com a certeza que me deixavam entrar e percorrer mais à vontade o arrojado equipamento que ergueram na Praça Mouzinho de Albuquerque. Na minha primeira visita à Casa da Música, fui lá por questões de ordem profissional e quase não passei da porta. Acontece, pensei eu, mas a verdade é que depois disso poucas vezes a Casa da Música me apelou. Enfim, já lá voltei, como disse, e aproveitei para confirmar, noutra perspectiva, uma ideia que tive: à noite, a rotunda da Boavista deveria ser designada como rotunda do não-se-vê-a-ponta-de-um-corno; ou rotunda do não-se-vê-nada, conforme as sensibilidades. Na rua, o jardim da Boavista convoca reuniões de bruxas assim que o Sol se põe; visto do interior da Casa da Música, o jardim da Boavista parece que vai vomitar mil demónios de dentro do seu bréu. Já que vai havendo dinheirito para gasear um pouco mais a cidade e brincar aos carrinhos de corrida na Avenida da Boavista, será que não se arranja uns troquitos para dar um pouquinho mais de luz ou vida às noites do jardim da rotunda e respectivo monumento onde o leão afiambra a águia? (E, já agora, se não é pedir muito, espalhava-se a coisa pelos outros jardins da cidade).

1 de Abril

Hoje, 1 de Abril, bámos dizer aos janotas da cámbra que gostamos munto, munto deles! E biba o presidente Rio, carago, que o hóme bê-se que tem queda!

Buracos financeiros?

À conta de uma mudança de casa, desconfio ter arranjado uma lombalgia e esmagado um músculo qualquer da grade costal. Nada de grave, nada que uma boa pomada e um bom par de mãos não resolvam. Medicina e um pouco de carinho recomendam-se nestes casos, e neste pormenor, de nada me queixo. Mas o que me arrasa, mesmo, é ter de percorrer as ruas desta cidade, as de paralelo, completamente irregulares e cheias de buracos, as de alcatrão, completamente esburacadas. O Porto está permanentemente em obras e arrepiante é ver que a cidade, apesar de tanta intervenção, não avança, ou, pelo menos, não se apresenta mais bonita nem mais viva. O que me projecta o pensamento para o território das interrogações: quem ganha (e quanto ganha), realmente, com tanto buraco que se abre nesta cidade? Vou comprar cotonetes, fita-cola e duas lanternas para investigar...

25.3.07

Tretas

Bem-vindos às Tretas à Moda do Porto. Desabafos, opiniões, alegrias, tristezas, confissões, emoções, humor, seriedade, rigor, informação, tudo isto cabe neste espaço com pronúncia do Norte. O insulto fica à porta, o Porto entra inteirinho pelo blog dentro.

Recepção de textos e tretas do género em:

milletras@gmail.com